Uma visão sobre sepse

Por Igor César de Oliveira Sousa 02/06/2021

De acordo com a atual classificação em vigor, sepse ou septicemia é definida como uma “disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à uma infecção”. A sepse é uma síndrome complexa, ocasionada pela resposta inflamatória descontrolada do organismo, decorrente de um foco infeccioso, com múltiplas manifestações clínicas que podem evoluir para disfunção orgânica ou morte. Na prática, a pessoa pode adquirir uma infecção no âmbito comunitário ou no âmbito hospitalar, e não apresentar uma boa resposta ao tratamento da infecção local com antimicrobianos, seja por uma intervenção inadequada ou porque o microrganismo responsável pela infecção é resistente ao medicamento utilizado. Neste caso, os patógenos infectam a circulação sistêmica de forma contínua e causam reações inflamatórias inespecíficas e disseminadas atingindo os órgãos, caracterizando a sepse. A evolução para uma forma mais grave, com repercussão prejudicial à função dos órgãos, com queda da pressão arterial, baixa oxigenação celular e tecidual é chamado de choque séptico. No choque séptico, o funcionamento geral do organismo fica comprometido e requer intervenção de aparelhos.

Existem grupos com maior predisposição a desenvolver a sepse, principalmente idosos com faixa etária acima de 65 anos, crianças com idade inferior a um ano e bebês pré-termo (prematuros), usuários de drogas, etilistas crônicos, pacientes hospitalizados por longo período e aqueles com sistema imunológico comprometido por doenças ou tratamentos supressores do sistema imune.

Os sinais clínicos e sintomas da sepse são marcados por pressão arterial reduzida, baixa concentração de oxigênio nas células e tecidos para manter as funções corporais, febre ou baixa na temperatura corporal, calafrios, aumento da frequência cardíaca e respiratória, redução do volume urinário, alterações no nível de consciência e irritabilidade.

O diagnóstico de sepse depende de uma avaliação clínica e exames laboratoriais. O foco primário da infecção pode ser localizado com base nos exames clínicos e histórico do paciente. Exames de imagens, como raios X, ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética, podem ser úteis para esclarecer o diagnóstico. Exames como hemograma (que demonstra alterações nas células do sangue), exames bioquímicos, exames de urina e hemocultura (no qual é possível promover o crescimento do microrganismo e posteriormente identificar o agente infeccioso causador da doença) podem ser solicitados para auxiliar o clínico na tomada de decisão. Contudo, estes exames apresentam desvantagens, como a baixa especificidade dos resultados ou longo tempo necessário para o crescimento e identificação do microrganismo. Além destes testes, painéis moleculares foram desenvolvidos e apresentam vantagens significativas para auxiliar o clínico na tomada de decisão rápida e adequação da medicação, evitando gastos desnecessários e tratamentos errôneos. Alguns exemplos são a tecnologia Flow Chip, que possui capacidade de detecção de mais de 30 patógenos e de genes de resistência a antibióticos, com resultado rápido (em até 6 horas), e painéis em sistema FilmArray®, que podem detectar 24 patógenos e genes de resistência a antibióticos associados com infecções da corrente sanguínea em uma hora.

O tratamento direcionado à sepse deve ser realizado em unidade de terapia intensiva (UTI), com objetivo de restabelecer as funções do organismo e manter os sinais vitais do paciente. Devido à alta taxa de mortalidade relacionada à sepse, o corpo clínico muitas vezes toma decisões terapêuticas empíricas, como antibioticoterapia de largo espectro por via endovenosa, ou seja, capaz de matar várias bactérias, antes mesmo do diagnóstico do microrganismo responsável pela infecção generalizada. Entretanto, essa forma de tratamento pode ser prejudicial ao paciente, elevando os índices de ocupação em leitos de UTI e gastos hospitalares. Um tratamento correto e assertivo deve ser realizado, pois cada hora de atraso pode resultar em um aumento de 7,6% nas taxas de mortalidade. Dados do DATASUS, departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil, demonstram que em 2019, no Brasil, foram registrados 21.671 óbitos por sepse.  

A prevenção da sepse é possível e requer um esforço de todos. Na comunidade, hábitos individuais de higiene pessoal e saúde devem ser adotados, além da qualidade de vida coletiva ter de ser impulsionada, com saneamento básico e acesso aos serviços de saúde para todos. No ambiente hospitalar, as medidas preventivas passam particularmente pela observação rigorosa das práticas universais de limpeza e desinfecção por parte da equipe de saúde e pela garantia de segurança nos processos de esterilização de artigos médicos e instrumentais. 

Apesar das melhorias advindas nas últimas décadas, a partir de estudos sobre mecanismos da fisiopatologia e o desenvolvimento de estratégias de manejo e intervenção, as taxas de mortalidade ainda permanecem elevadas. O diagnóstico precoce e o início imediato do tratamento são medidas fundamentais para o controle da sepse e suas complicações. Cuidados individuais e coletivos devem ser adotados com objetivo de evitar infecções que possam ocasionar sepse.

Referências: 

Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, Shankar-Hari M, Annane D, Bauer M, et al. The third international consensus definitions for sepsis and septic shock (Sepsis-3). JAMA. 2016; 315(8):801-810

Sepse: Um problema de saúde pública. Instituto Latino Americano para Estudo da Sepse. Brasília, CFM, 2015.

Brasil, Ministério da Saúde. Banco de dados do Sistema Único de Saúde-DATASUS. Disponível em http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php [Acessado em 01 de Julho de 2021]    

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