Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)

Por Patrícia Machado Pinto 11/10/21

Anteriormente denominadas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), termo que se refere a um estado de doença reconhecível com sintomas e sinais visíveis no organismo do indivíduo, passaram a ser denominadas ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), pois “infecções” referem-se ao contato com patógenos que podem apresentar períodos assintomáticos, detectados por meio de exames específicos. Logo, o termo IST é considerado mais adequado e incorporado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e demais organizações que lidam com a temática ao redor do mundo.

Entendendo que a saúde vai além da ausência de doença, a OMS a define como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Nesse contexto, a prevenção da transmissão de doenças precisa ir além da abordagem meramente informativa e se vincular a metodologias participativas que incorporem elementos ligados às crenças, à moral, aos preconceitos, à afetividade e à história de vida das pessoas. Nas mais diferentes sociedades do mundo, o tema da sexualidade é envolto em tabus e mitos, que se por um lado tentam explicar a dimensão humana e o mundo ao redor, também podem resultar em interpretações incorretas acarretando em decisões equivocadas sobre o comportamento sexual. Os tabus sobre sexualidade geram comportamentos de risco, deixando as pessoas mais vulneráveis a condições como ISTs, gravidez não planejada e até depressão. O sucesso na prevenção de ISTs em jovens depende da implementação de políticas educacionais e de saúde que promovam o entendimento do próprio corpo e da saúde.

As ISTs estão entre os problemas de saúde pública mais comuns no Brasil e no mundo, afetando principalmente a população jovem, mas também as demais faixas etárias. Têm um impacto profundo na saúde sexual e reprodutiva do indivíduo. A transmissão é predominantemente pelo contato sexual, incluindo sexo vaginal, anal e oral, porém tabém por meios não sexuais, como sangue ou hemoderivados. Podem ter consequências graves para a saúde reprodutiva, além do impacto imediato da própria infecção, como por exemplo, infertilidade ou transmissão de mãe para filho durante a gravidez e no parto. A transmissão de ISTs de mãe para filho pode resultar em graves consequências que vão de prematuridade a infecções neonatais, deformidades congênitas e morte neonatal.

Mais de 30 diferentes bactérias, vírus e parasitas podem ser transmitidos por contato sexual, porém as maiores incidências de ISTs estão relacionadas a oito patógenos, dos quais quatro provocam infecções curáveis atualmente, como a sífilis, gonorreia, clamídia e tricomoníase, e outras 4 infecções virais incuráveis para as quais existem tratamentos que reduzem a infecção ou aliviam os sintomas: hepatite B, herpes genital, HIV (vírus da imunodeficiência adquirida) e HPV (papilomavírus humano). 

Os números de ISTs impressionam, mais de 1 milhão de ISTs são adquiridas todos os dias. Em 2016, a OMS estimou 376 milhões de novas infecções com 1 de 4 ISTs: clamídia (127 milhões), gonorreia (87 milhões), sífilis (6,3 milhões) e tricomoníase (156 milhões). Mais de 500 milhões de pessoas vivem com infecção genital por HSV (herpes) e cerca de 300 milhões de mulheres têm infecção por HPV, a principal causa do câncer cervical. Estima-se que 240 milhões de pessoas vivam com hepatite B crônica em todo o mundo. As infecções por HPV e hepatite B são evitáveis com a vacinação.

As ISTs estão entre os problemas de saúde pública mais comuns no Brasil e no mundo. A atenção primária à saúde constitui o ponto de partida para o atendimento às ISTs, com realização de ações de prevenção, diagnóstico e tratamento adequado. É importante que o profissional de saúde esteja disponível para diálogo e forneça informações sobre educação em saúde, abordando temas como agentes causais das ISTs, possíveis formas de transmissão, prevenção, diagnóstico e importância da adesão ao tratamento, além da definição de estratégia para seguimento, atenção às parcerias sexuais e acesso aos insumos de prevenção.

Para que se interrompa a cadeia de transmissão das ISTs, é fundamental que os contatos sexuais das pessoas infectadas sejam tratados, mesmo quando assintomáticos. Portanto, essa informação deve ser repassada à pessoa com IST, ao tempo em que se fornecem instrumentos para comunicação e apoio até o final do atendimento. Deverá ser garantida a confidencialidade, ausência de coerção e proteção contra a discriminação.

Quanto aos aspectos clínicos, as ISTs podem se manifestar por meio de feridas, corrimentos e verrugas anogenitais, dor pélvica, ardência ao urinar, lesões de pele e aumento de ínguas. As ISTs aparecem, principalmente, no órgão genital, mas podem surgir também em outras partes do corpo, como palma das mãos, olhos e língua. Dentro da questão do tabu da sexualidade, é importante que os jovens sejam orientados a observarem o corpo durante a higiene pessoal, e percebendo algum sinal ou algum sintoma, deve-se procurar o serviço de saúde, o que pode ajudar a identificar uma IST no estágio inicial.

O diagnóstico de ISTs é baseado inicialmente por uma avaliação clínica e, quando em consulta, o médico pode identificar possíveis sintomas ou sinais de IST, como por exemplo, visualizar lesão durante exame clínico. Do mesmo modo, a anamnese irá indicar a possibilidade de comportamento de risco para IST. A avaliação laboratorial deverá ser específica para cada infecção, pois podem ser utilizadas diferentes técnicas.

As estratégias de detecção laboratorial de IST são basicamente centradas em 3 aspectos: 1) Detecção direta do microrganismo por microscopia associada a coloração, cultura do agente etiológico, ou detecção de antígenos ou técnicas de biologia molecular, que incluem métodos com elevada sensibilidade e especificidade, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), capaz de identificar um ou mais patógenos simultaneamente em uma única amostra; 2) Detecção de resposta do hospedeiro considerando a janela imunológica, por Western Blot, aglutinação, imunoensaios (necessário aguardar o tempo após o contato, para que haja a possibilidade de detecção do antígeno ou do anticorpo produzido pelo sistema imune); 3) Detecção de metabólitos microbianos que alterem o pH das secreções genitais. 

A resistência aos medicamentos, especialmente para gonorreia, é uma grande ameaça para a redução do impacto das ISTs, segundo o Programa para vigilância mundial da susceptibilidade do gonococo aos antimicrobianos (Gonococcal Antimicrobial Surveillance Programme (GASP)), da OMS. O programa vem reportando aumento da resistência aos antibióticos mais utilizados contra a gonorreia, fato que reforça o alerta mundial de que a doença está se tornando intratável e a necessidade dos países implementarem e manterem seus programas de vigilância. O Brasil é um dos países membros do GASP e estabelece estratégias para detectar rapidamente pacientes com infecções gonocócicas, que apresentam uma falha de tratamento clínico e/ou microbiológico após o tratamento e garante o manejo clínico eficaz de pacientes infectados e seus parceiros sexuais. 

As ISTs são prioridade da OMS, estando o plano de resposta do setor de saúde às epidemias de infecções sexualmente transmissíveis como necessário para o alcance da cobertura universal de saúde – uma das principais metas de saúde na Agenda 2030. 

Referências:

Sexually transmitted infections (STIs) – 

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/sexually-transmitted-infections-(stis)

Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021, MMWR, CDC –  https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/STI-Guidelines-2021.pdf

Brazilian Protocol for Sexually Transmitted Infections 2020: infections that cause urethral discharge – Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: infecções que causam corrimento uretral. doi: 10.1590/S1679-4974202100009.esp1.

WHO. Laboratory diagnosis of sexually transmitted infections, including human immunodeficiency virus – https://www.who.int/medical_devices/diagnostics/selection_in-vitro/selection_in-vitro-meetings/00007_01_WHO_Laboratory_Manual_STIs.pdf.

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