Imunização infantil

Por Patrícia Machado Pinto 25/01/22

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas, se mostrou favorável à vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra Covid-19, com o imunizante da Pfizer. Vacinação essa, recomendada através da nota da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (CTAI) Covid-19, cujos membros manifestaram-se unanimemente favoráveis à sua inclusão na campanha nacional de vacinação, logo após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ter aprovado o uso do imunizante para população pediátrica nessa faixa etária no Brasil. No dia 20/01/2022, a Anvisa liberou a vacinação para uso pediátrico da Coronavac, com restrição da aplicação em imunossuprimidos. A decisão foi tomada após avaliação técnica do pedido do Instituto Butantan. Esses dados mostram que não há dúvidas, do ponto de vista técnico-científico, sobre a segurança e importância das vacinas. A Opas usualmente atua como observadora e parceira na geração de dados e subsídios sem nunca interferir na autonomia dos Estados. 

Mesmo diante de evidências técnico-científicas e aprovação da Anvisa, o Governo Federal promoveu durante onze dias, uma Consulta Pública sobre a vacinação infantil e a exigência de prescrição médica para sua aplicação. Em meio a polêmicas sobre violação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), e falta de segurança dos dados dos participantes, a Consulta contribuiu para o atraso no início da vacinação infantil no país, que só aconteceu em 16 de janeiro, gerando preocupação de Sociedades médicas e profissionais de saúde, já que a vacinação desse grupo é classificada como medida estratégica para controle da pandemia. A OMS, confirma que as vacinas contra a Covid-19 que receberam autorização de entidades regulatórias para serem aplicadas em crianças e adolescentes são seguras e eficazes para reduzir os impactos da doença nestes grupos. O Brasil, que há quase 50 anos conta com o PNI para definir políticas de vacinação, e vacinar nossa população, é um dos maiores programas de vacinação do mundo, reconhecido nacional e internacionalmente, porém com relação à vacinação infantil contra covid-19 estamos muito atrás de vizinhos das Américas como Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, El Salvador, Canadá, Estados Unidos, que iniciaram a vacinação de suas crianças meses antes de nós. No resto do mundo também a vacinação infantil está em curso há meses como nos países da União Europeia, Emirados Árabes, Singapura, China, Austrália etc. Esse fato expõe um distanciamento das decisões políticas do Governo Federal de avaliações técnicas, particularmente na área da saúde. 

Apesar de predominarem as formas clínicas mais leves ou assintomáticas entre crianças e adolescen

tes, eles não estão isentos da ocorrência de formas mais graves, como a síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) associada à COVID-19, possíveis e importantes causas de morbimortalidade nessa população. Outro aspecto importante a destacar são as evidências de persistência de sintomas (COVID-19 longa) em crianças e adolescentes após a fase aguda da doença. Fadiga, cefaléia, sonolência, perda de concentração e anosmia têm sido frequentes.

Condições médicas pré-existentes, região geopolítica e etnia indígena revelaram-se fatores associados à maior gravidade da doença em crianças e maior risco de morte por COVID-19, por isso, há razões claras para justificar a vacinação de crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria, por sua vez, recomenda a aplicação da vacina COVID-19 de RNAm da Pfizer-BioNTech para todos os adolescentes com 12 anos ou mais, pautando-se em estudos clínicos sobre a aplicação da vacina nesse grupo etário, seu licenciamento pela Anvisa para uso no Brasil e a experiência de outros países.

A vacinação confere o benefício direto da prevenção de doenças, mais os benefícios indiretos, incluindo a proteção da comunidade. Embora, geralmente, as crianças tenham uma frequência menor de COVID-19 sintomática que os adultos, as atividades escolares, a prática de esportes juvenis e outras formas de encontro da comunidade podem representar fontes importantes de surtos e transmissão, mesmo entre adultos vacinados. A vacinação de adolescentes permitirá que eles se reintegrem à sociedade e retomem o aprendizado presencial com segurança, haja vista os graves efeitos da pandemia da COVID-19 na saúde mental dessa população.

O CDC (EUA) continua recomendando para adolescentes a vacina COVID-19 de RNAm da Pfizer-BioNTech, por considerar que, na situação epidemiológica atual, com a circulação de novas variantes do SARS-CoV-2 mais transmissível, os benefícios da vacinação superam os riscos de quaisquer eventos adversos raros relacionados a essas vacinas.

É importante observar que a progressão da vacinação completa de adultos faz com que os casos graves de COVID-19 tendam a se concentrar em populações não vacinadas, ocorrendo desvio de faixa etária, com aumento de casos na população pediátrica. A vacinação desse grupo pode contribuir para a redução da circulação do vírus na comunidade e o efetivo controle da pandemia.

Ao contrário dos adultos infectados, as crianças raramente experimentam as formas graves da doença. Lactentes e crianças em idade pré-escolar apresentaram maior probabilidade de manifestações clínicas graves do que crianças mais velhas, o que está de acordo com dados anteriores de crianças com infecções por coronavírus não SARS-CoV-2. Em comparação aos pacientes pediátricos com infecção por influenza, as crianças com COVID-19 apresentaram uma proporção maior de casos assintomáticos, embora a pneumonia tenha sido mais prevalente. Com base na experiência dos primeiros casos tratados em São Paulo, os pediatras devem estar alertas quanto à possibilidade de coinfecção por outro vírus respiratório ao tratar bebês e crianças pequenas com COVID-19.

As razões para o risco muito menor das formas graves COVID-19 em crianças (consistentes com o observado anteriormente para SARS e MERS), quando comparadas às faixas etárias mais velhas, permanecem incertas e várias hipóteses foram levantadas para explicar esse fenômeno, incluindo diferentes padrões de respostas imunológicas entre as idades. É mais provável que os adultos, uma vez infectados com SARS- -CoV-2, desenvolvam respostas imunes desbalanceadas, o que leva a uma tempestade de citocinas, frequentemente associada a danos nos pulmões e pior prognóstico para os pacientes, em oposição a lactentes e crianças nos quais seriam esperadas diferenças na imunidade inata e uma resposta mais eficiente das células T, capazes de eliminar o vírus.

Uma hipótese para explicar a menor gravidade da COVID-19 pode estar relacionada à expressão da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) nas células epiteliais alveolares do tipo I e II. Verificou-se que a ACE2 é o receptor do SARS-CoV-2, necessário para a entrada na célula hospedeira e subsequente replicação viral. Portanto, uma expressão limitada da ACE2 na infância, um período em que os pulmões ainda estão em desenvolvimento, poderia proteger as crianças das formas graves de doença.

Ainda que a COVID-19 seja geralmente menos grave em crianças do que em adultos; o risco da síndrome inflamatória multissistêmica em crianças após a infecção aguda; o risco de doença grave em crianças com comorbidades; o desejo geral de prevenir COVID-19 e controlar a transmissão da doença; e o fato das vacinas se mostrarem seguras também para crianças, permanecem razões convincentes para a inclusão da vacinação neste grupo.

A vacinação é uma importante ferramenta no combate à Pandemia causada pelo SARS-COV-2. Entretanto, por tratar-se de um novo campo de conhecimento em constantes expansão e modificação, todas as recomendações de mitigação da doença, como medidas não farmacológicas, incluindo o uso correto de máscaras seguras, renovação eficiente do ar, distanciamento social, higienização frequente das mãos necessitam continuar, até que a imunidade coletiva seja alcançada.

Por fim, o PNI tem larga experiência em organizar campanhas de vacinação em massa, atingindo elevadas coberturas vacinais e o seu objetivo que é proteger a saúde da população definida nessas estratégias. Vacinas são instrumentos de saúde coletiva, ao se atingir elevadas coberturas vacinais, além da redução de casos da doença na população-alvo da vacinação, contribui-se para a diminuição da circulação do agente infeccioso nas comunidades, impactando positivamente na saúde daqueles que não serão vacinados. Reduzindo assim a circulação, a morbidade e a mortalidade causadas por doenças imunopreviníveis.

A pandemia de COVID-19 vem produzindo repercussões não apenas na saúde física e mental da nossa população, mas também impactos sociais, econômicos, políticos, culturais e históricos sem precedentes na história recente do país. Dessa forma, é crucial que a população demande uma política nacional de enfrentamento dessa nova fase da pandemia baseada em conhecimento técnico e científico, com plano nacional de vacinação abrangente, com organização da logística de execução exitosa, independentemente de que instrumentos ou fontes de recursos sejam utilizados para a aquisição de todos os tipos de vacinas que estarão disponíveis no território nacional.

Bibliografia:

CDC- Centers for Disease Control and Prevention. COVID-19 Vaccines for Children and Teens. Most Children and All Teens Can Get COVID-19 Vaccines 2022. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/vaccines/recommendations/children-teens.html

Nature: Five reasons why COVID herd immunity is probably impossible. https://www.nature.com/articles/d41586-021-00728-2. 2021

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